sábado, 24 de março de 2012

Só começamos a entender algo da fé quando nos sentimos amados por Deus - João 12,20-33

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo João 12,20-33 que corresponde ao Domingo 5º da Quaresma, ciclo B do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.
 
 

O atrativo de Jesus

Uns peregrinos gregos que vieram celebrar a Páscoa dos judeus aproximaram-se de Felipe com uma petição: “Queremos ver Jesus”. Não é curiosidade. É um desejo profundo de conhecer o mistério que se encerra naquele Homem de Deus. Também a eles lhes pode fazer bem.
 
 
Jesus é visto preocupado. Dentro de alguns dias será crucificado. Quando lhe comunicam o desejo dos peregrinos gregos, pronuncia umas palavras desconcertantes: “Chega a hora de que seja glorificado o Filho do Homem”. Quando for crucificado, todos poderão ver com claridade onde está a Sua verdadeira grandeza e a Sua glória.
 
 
Provavelmente ninguém entendeu nada. Mas Jesus, pensando na forma de morte que o espera, insiste: “Quando Eu for elevado sobre a terra, atrairei todos até Mim”. Que se esconde no crucificado para que tenha esse poder de atração? Apenas uma coisa: O Seu amor incrível a todos.
O amor é invisível. Só o podemos ver nos gestos, nos sinais e na entrega de quem nos quer bem. Por isso, em Jesus crucificado, na Sua vida entregue até à morte, podemos perceber o amor insondável de Deus. Na realidade, só começamos a ser cristãos quando nos sentimos atraídos por Jesus. Só começamos a entender algo da fé quando nos sentimos amados por Deus.
 
Para explicar a força que se encerra em Sua morte na cruz, Jesus utiliza uma imagem simples que todos podemos entender: “Se o grão de trigo não cai na terra e morre, fica infecundo; mas se morre, dá muito fruto”. Se o grão morre, germina e faz brotar a vida; mas se se encerra no seu pequeno involucro e guarda para si a sua energia vital, permanece estéril.
Essa bela imagem descobre-nos uma lei que atravessa misteriosamente a vida inteira. Não é uma norma moral. Não é uma lei imposta pela religião. É a dinâmica que torna fecunda a vida de quem sofre movido pelo amor. É uma ideia repetida por Jesus em diversas ocasiões: Quem se agarra egoisticamente à sua vida, coloca-a a perder; quem sabe entregá-la com generosidade gera mais vida.
 
Não é difícil comprová-lo. Quem vive exclusivamente para o seu bem-estar, o seu dinheiro, o seu êxito, a sua segurança, acaba vivendo uma vida medíocre e estéril: a sua passagem por este mundo não faz a vida mais humana. Quem se arrisca a viver uma atitude aberta e generosa difunde a vida, irradia alegria, ajuda a viver. Não há uma forma mais apaixonante de viver que fazer a vida dos outros mais humana e leve. Como poderemos seguir Jesus se não nos sentimos atraídos pelo Seu estilo de vida?
 
 
Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/507751-so-comecamos-a-entender-algo-da-fe-quando-nos-sentimos-amados-por-deus
 
 

domingo, 18 de março de 2012

Poderemos ver e sentir o amor de Deus nesse homem torturado na cruz?

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo João 3,14-21 que corresponde ao Domingo 4º da Quaresma, ciclo B do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.

Olhar o Crucificado

O evangelista João nos fala de um estranho encontro de Jesus com um importante fariseu, chamado Nicodemos. Segundo o relato, é Nicodemos quem toma a iniciativa e vai até Jesus “de noite”. Intui que Jesus é “um homem vindo de Deus”, mas move-se entre trevas. Jesus irá conduzindo-o até à luz.

Nicodemos representa no relato todos aqueles que procuram sinceramente encontrar-se com Jesus. Por isso, em certo momento, Nicodemos desaparece de cena e Jesus prossegue o Seu discurso para concluir com um convite geral a não viver nas trevas, mas a procurar a luz.

Segundo Jesus, a luz que pode iluminar tudo está no Crucificado. A afirmação é atrevida: “Tanto amou Deus ao mundo que entregou o Seu Filho único para que não pereça nenhum dos que creem Nele, mas que tenham a vida eterna”. Poderemos ver e sentir o amor de Deus nesse homem torturado na cruz?

Habituados desde criança a ver a cruz por toda a parte, não aprendemos a olhar o rosto do Crucificado com fé e com amor. O nosso olhar distraído não é capaz de descobrir nesse rosto a luz que poderia iluminar a nossa vida nos momentos mais duros e difíceis.

No entanto, Jesus nos envia sinais de vida e de amor.

Nesses braços estendidos que já não podem abraçar as crianças, e nessas mãos cravadas que não podem acariciar os leprosos nem bendizer os doentes, está Deus com os Seus braços abertos para acolher, abraçar e sustentar as nossas pobres vidas, rasgadas por tantos sofrimentos.

Desde esse rosto apagado pela morte, desde esses olhos que já não podem olhar com ternura os pecadores e prostitutas, desde essa boca que não pode gritar a Sua indignação pelas vítimas de tantos abusos e injustiças, Deus revela-Nos o Seu “amor louco” pela humanidade.

“Deus não mandou o Seu Filho para julgar o mundo, mas para que o mundo se salve por Ele”. Podemos acolher a esse Deus e podemos rejeitá-Lo. Ninguém nos força. Somos nós os que temos de decidir. Mas “a Luz já veio ao mundo”. Por que tantas vezes rejeitamos a luz que nos vem do Crucificado?

Ele poderia pôr luz na vida mais desgraçada e fracassada, mas “o que age mal... não se aproxima da luz para não se ver acusado pelas suas obras”. Quando vivemos de forma pouco digna, evitamos a luz porque nos sentimos mal ante Deus. Não queremos olhar o Crucificado. Pelo contrário, “o que realiza a verdade, aproxima-se da luz”. Não foge para a escuridão. Não tem nada para ocultar. Procura com o seu olhar o Crucificado. Ele faz viver na luz.

José Antonio Pagola cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, e Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. Foi professor de Cristologia na Faculdade Teológica do Norte da Espanha (Vitoria).  É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia.  Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião.  Há sete anos se dedica exclusivamente a pesquisar e tornar conhecida a pessoa de Jesus.



sexta-feira, 9 de março de 2012

UMA FAXINA NA CASA DE DEUS - JESUS É O NOVO TEMPLO (João 2,13-25)

Jesus é o novo templo (João 2,13-25) - Mesters, Lopes e Orofino

Texto extraído do livro "Raio-X da Vida - Círculos Bíblicos do Evangelho de João"
A Palavra na Vida 147/148.
Autores: Carlos Mesters, Mercedes Lopes e Francisco Orofino.
Publicação do CEBI – Centro de Estudos Bíblicos
www.cebi.org.br
vendas: vendas@cebi.org.br

SITUANDO
O início da atividade de Jesus foi apresentado dentro do esquema de uma semana. Agora, ao iniciar a descrição dos sinais que acontecem no sábado prolongado, o Quarto Evangelho adota o esquema das festas. Sábado é festa! Todos os sinais relatados por João estão relacionados, de uma ou de outra maneira, com festas importantes da vida do povo: casamento (Jo 2,1), Páscoa (Jo 2,13; 6,4; 11,55; 12,12; 13,1); Tendas (Jo 7,2.37); Pentecostes (Jo 5,1), Dedicação do Templo (Jo 10,22).
Os Evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas colocam a expulsão do templo no fim da atividade de Jesus, pouco antes da sua prisão, como um dos motivos que levaram as autoridades a prender e matar Jesus. O Evangelho de João coloca o mesmo episódio no começo da atividade de Jesus. É para que as comunidades entendam que a nova imagem de Deus, revelada por Jesus, não está mais no antigo templo de Jerusalém, mas sim no novo templo que é Jesus. Não se pode colocar remendo novo em pano velho (Mc 2,21).
COMENTANDO
João 2,13-14: Na festa da Páscoa, Jesus vai ao Templo para encontrar o Pai, e encontra o comércio
Os outros evangelhos relatam apenas uma única visita de Jesus a Jerusalém durante a sua vida pública, aquela em que ele foi preso e morto. O Evangelho de João traz informações mais exatas. Ele diz que Jesus ia a Jerusalém nas grandes festas. Ir a Jerusalém significa ir ao Templo para encontrar-se com Deus. No casamento em Caná apareceu o contraste entre o vazio do Antigo Testamento e a abundância do Novo. Aqui vai aparecer o contraste entre o antigo templo, que virou casa de comércio, e o novo templo que é Jesus.
João 2,15-16: Jesus faz uma faxina no templo
No templo havia o comércio de animais para os sacrifícios e havia as mesas dos cambistas, onde o povo podia adquirir a moeda do imposto do templo. Vendo tudo isto, Jesus faz um chicote de cordas e expulsa do templo os vendedores com seus animais. Derruba as mesas dos cambistas, joga o dinheiro no chão e diz aos vendedores de pombas: "Tirem essas coisas daqui! Não façam da casa do meu Pai uma casa de comércio!" O gesto e as palavras de Jesus lembram várias profecias: a casa de Deus não pode ser transformada em covil de ladrões (Jr 7,11); no futuro não haverá mais vendedor na casa de Deus (Zc 14,21); a casa de Deus deve ser uma casa de oração para todos os povos (Is 56,7).
João 2,17: Os discípulos procuram entender o gesto de Jesus
Vendo o gesto de Jesus, os discípulos foram lembrando outras frases e fatos do Antigo Testamento: o salmo que diz: "O zelo de tua casa me devora" (Sl 69,10), e o profeta Elias que dizia: "Eu me consumo de zelo pela causa de Deus" (1Rs 19,9.14). Naquele tempo diziam: "A Bíblia se explica pela Bíblia". Ou seja, só Deus consegue explicar o sentido da Palavra de Deus. Por isso, se os gestos de Jesus são Palavras de Deus, então devem ser iluminados e interpretados a partir da Palavra de Deus presente na Escritura. Isto ajuda a atualizar o significado das coisas que Jesus fez e falou, e a manter viva a sua presença no meio de nós. Aqui se percebe como é importante o mutirão de memória para lembrar outros textos da Bíblia.
João 2,18-20: Diálogo entre Jesus e os judeus
Tocando no templo, Jesus tocou no fundamento da religião do seu povo. Os judeus, isto é, os líderes, perceberam que ele tinha agido com muita autoridade. Por isso, pedem que apresente os documentos: "Que sinal você nos dá para agir desse jeito?" Jesus responde: "Podem destruir esse templo e em três dias eu o levantarei!" Jesus falava do templo do seu corpo, que seria destruído pelos judeus e em três dias seria totalmente renovado através da ressurreição. Os judeus tomaram as palavras de Jesus ao pé da letra e zombaram dele: "Levaram 46 anos para fazer este templo e você o levantará em três dias!" É como se dissessem com desprezo: "Vá enganar outro!" Sinal de que nada entenderam do gesto de Jesus, ou não quiseram entendê-lo!
João 2,21-22: Comentário do evangelista
Os discípulos também não entenderam o significado desta palavra de Jesus. Foi só depois da ressurreição que compreenderam que ele estava falando do templo do seu corpo. A compreensão das coisas de Deus só acontece aos poucos, em etapas. A expulsão dos comerciantes tinha ajudado a entender as profecias do Antigo Testamento. Agora, é a luz da ressurreição que ajuda a entender as palavras do próprio Jesus. Jesus ressuscitado é o novo templo, onde Deus se faz presente no meio da comunidade.
João 2,23-25: Comentário do evangelista sobre a fé imperfeita de algumas pessoas
Naqueles dias da festa da Páscoa, estando Jesus em Jerusalém, muita gente começou a crer nele por causa dos sinais que ele fazia. O evangelista comenta que a fé da maioria destas pessoas era superficial, só da boca para fora. Este breve comentário sobre a imperfeição da fé das pessoas deixa uma pergunta importante na cabeça da gente: "Então, como é que eu devo fazer para crescer na fé?" A resposta vai ser dada na conversa de Jesus com Nicodemos.
ALARGANDO
Jesus e o templo
Para os judeus no tempo de Jesus, o centro do mundo, o lugar onde céu tocava na terra era o Santo dos Santos no templo de Jerusalém. Sendo o lugar central da religião, o culto no templo regulava a vida cotidiana de todos. O judeu piedoso, não importando o lugar em que morasse, deveria ir ao templo uma vez na vida. Mesmo no lugar mais distante, quando fazia suas orações a pessoa devia orientar seu corpo em direção a Jerusalém e ao templo. O templo era o lugar para onde convergiam as multidões de romeiros três vezes ao ano, por ocasião das grandes festas nacionais.
Sendo de família judia, Jesus segue a prática religiosa de sua gente. Por ser o primogênito de José e de Maria, ele foi apresentado a Deus no templo quando nasceu. Aos 12 anos fez o ritual de passagem para a vida adulta, lendo um trecho da Lei diante dos escribas do templo. Com seus familiares participava das romarias anuais por ocasião das festas. Durante sua vida pública, Jesus toma atitudes de verdadeiro profeta, denunciando os desvios do culto celebrado no templo. Seu gesto de expulsar do santuário os cambistas e os vendedores lembra as palavras de Miquéias (Mq 3,11-12), de Jeremias (Jr 26,1-18) e de Isaías (Is 66,1-4). Retomando as palavras de Oséias (Os 6,6), Jesus proclama a superioridade da misericórdia sobre os sacrifícios (Mt 12,7-8).
As primeiras comunidades dos seguidores e seguidoras de Jesus eram todas formadas por gente vinda do judaísmo da Palestina. No início, estas pessoas continuavam ligadas ao templo e frequentavam o santuário para rezar (At 2,46; 3,1). Mas, com o tempo, judeus helenistas e samaritanos entraram na comunidade. Estas pessoas não tinham uma ligação tão profunda com o templo de Jerusalém. Principalmente os samaritanos, que tinham seu próprio santuário no alto do monte Garizim (Jo 4,20). A presença destas pessoas fez com que as comunidades começassem a perceber que a prática libertadora de Jesus tornava inúteis os sacrifícios apresentados pelos sacerdotes do templo.
Depois do ano 70, com a destruição do templo, as comunidades releram as palavras de Jesus e concluíram que o templo de Jerusalém estava ultrapassado. A Glória de Deus não habitava mais naquele espaço! As comunidades do Discípulo Amado foram as que mais avançaram nesta reflexão. Elas concluíram que em Jesus, Palavra de Deus feita carne, reside a Glória de Deus (Jo 1,14). Jesus é o novo templo! O corpo de Jesus, ou seja, a sua realidade humana, é o local em que habita a plenitude da Divindade (Jo 2,21-22). Deus não se prende a nenhum santuário, nem o de Jerusalém nem o do monte Garizim. O que o Pai quer são os verdadeiros adoradores, aquelas pessoas que manifestam Deus em suas vidas através do amor ao próximo. Estas são as que o adoram "em espírito e verdade" (Jo 4,23). O verdadeiro templo de Deus é a comunidade, onde as pessoas são todas sacerdotes e sacerdotisas, "as palavras vivas", que continuamente oferecem a Deus o autêntico sacrifício espiritual (1Pd 2,4-5). Por isso mesmo, no Evangelho de João, a limpeza da casa de Deus acontece no início da vida pública de Jesus.