domingo, 4 de março de 2012

Este é o meu filho amado, escutai-o (Marcos 9,2-10)

Ildo Bohn Gass

Situando o texto na estrutura do Evangelho e na intenção de Marcos
Neste domingo, muitas comunidades celebram, tendo como Evangelho a narrativa de Marcos que apresenta Jesus vitorioso sobre a morte e sobre os poderes que o mataram. É o texto mais conhecido como a transfiguração de Jesus no monte (Marcos 9,2-10).
Conforme o plano deste Evangelho, encontramo-nos na parte que se refere ao caminho do discipulado, do seguimento (Marcos 8,22-10,52). É o caminho em que Jesus vai abrindo os olhos, isto é, vai instruindo as pessoas que o seguem sobre quais os critérios e quais as exigências do seguimento ao projeto do Reino. Por isso, começa narrando a cura da cegueira como um processo (Marcos 8,22-26) que somente será completo, depois de todas as orientações de Jesus, quando Bartimeu, curado da cegueira, decide seguir Jesus pelo caminho (Marcos 10,46-52). Nesse caminho, estão os três anúncios da paixão (Marcos 8,31-32; 9,30-31; 10,32-34). Cada anúncio vem seguido pela incompreensão ou cegueira dos discípulos e por instruções de Jesus sobre o seguimento. O relato da transfiguração no monte faz parte das instruções após o primeiro anúncio da paixão. Sua função é contribuir na cura da cegueira, na falta de entendimento do caminho, do seguimento ontem e hoje.

Além disso, este relato é uma leitura pós-pascal e pretende narrar antecipadamente a vitória de Jesus sobre a morte na cruz, apresentando-o como o messias glorioso. É o que indica sua roupa brilhante (Marcos 9,3). A ressurreição, a vitória sobre a cruz, é a vida em toda a sua plenitude que vence os poderes de morte deste mundo. É que nos encontramos num momento em que a cruz do império mais uma vez pesa forte sobre o povo. Estamos no período da guerra judaico-romana (66 a 73 dC), realidade em que este Evangelho foi escrito nos arredores da Galileia.

Por um lado, apresentar Jesus vitorioso sobre a cruz anima as comunidades a resistirem com esperança contra a violência imperial. E a crucificação era o instrumento principal de condenação à morte para quem não se submetesse ao poder implacável de Roma.

Por outro lado, esta narrativa quer ajudar a superar a dificuldade em aceitar Jesus como o messias, uma vez que fora crucificado como alguém que ameaçara o poder colonialista na região. É como escreve a própria comunidade de Marcos: Acima dele, havia a inscrição do motivo: ‘O rei dos judeus' (Marcos 15,26). Para os judeus, ser pendurado numa árvore, ter o corpo exposto de forma humilhante como advertência às demais pessoas que não se sujeitavam à opressão era um escândalo (Deuteronômio 21,22-23; Josué 8,29; 10,26). Daí a resistência de muitas pessoas de origem judaica em aceitar Jesus como o messias. E para os gentios, também havia uma dificuldade para aderirem a Jesus como o enviado de Deus. Era o fato de ele ter sofrido a pena de morte. Era uma loucura, algo inaceitável e que impedia reconhecerem em Jesus o filho amado do Pai (1 Coríntios 1,23).

Abrindo olhos e corações
Para ajudar as comunidades neste contexto a aderirem firmemente ao messias, que passou pela cruz, e para resistirem com esperança num momento em que a cruz fazia parte do cotidiano durante a guerra com os romanos em torno do ano 70, Marcos faz memória das Escrituras judaicas como luz a iluminar o caminho do discipulado, do seguimento. Com essa narrativa, Marcos quer ajudar as comunidades a perceberem que a cruz, em vez de ser escandalosa ou uma loucura, revela a fidelidade de Jesus à defesa da vida, ao projeto do Pai.

As tradições do passado iluminam o presente
Primeiro, apresenta a vida de Jesus transfigurada, com um novo brilho, um novo sentido (Marcos 9,2-4). Ela revela a força de Deus. Manifesta a sua glória na fidelidade de seu ungido até as últimas consequências. Ao mesmo tempo, a transfiguração ou ressurreição de Jesus manifesta, de um lado, a condenação de Deus sobre a violência imposta pelos poderes deste mundo. De outro, revela também a exaltação, o reconhecimento de quem dá sua vida em favor do projeto do Reino e de sua justiça, como fiel servidor.

Ao lembrar um alto monte em um lugar deserto, vem à memória o brilho da aliança de Deus com seu povo liberto da casa da escravidão e a caminho da partilha do pão, do poder e da terra. Em Jesus, renova-se essa aliança, esse mesmo projeto libertador, projeto de vida.

Elias é o representante da profecia. Moisés faz lembrar não somente o êxodo, mas também todo Pentateuco, toda lei, que a tradição judaica atribuía a ele. Por um lado, a lei e os profetas, isto é, todas as Escrituras, se realizam em Jesus. Ou seja, o Nazareno dá continuidade à primeira aliança, levando-a a sua plenitude. Por outro lado, a comunidade de Marcos apresenta Jesus como um profeta que, como os profetas Elias (1 Reis 17,1) e Moisés (Deuteronômio 18,15), veio anunciar um novo êxodo de liberdade para seu povo. O fato de Jesus subir no alto de uma montanha (Mc 9,2) confirma esta perspectiva, pois é uma referência ao monte Sinai, no qual, segundo as narrativas de Êxodo 19-24, Deus deu a conhecer ao povo o seu projeto de vida e de liberdade. Se lá Moisés teve a responsabilidade de mediar a aliança, agora essa mediação é tarefa de todas as comunidades representadas pelos três apóstolos. A roupa resplandecente, muito branca, tal como também resplandecera a face de Moisés no monte Sinai (Marcos 9,3; Êxodo 34,29-35), manifesta a glória de Deus em Jesus vitorioso sobre a morte.

A cegueira de Pedro
Quando Jesus anunciou a cruz como consequência de sua fidelidade à luta pela vida em abundância para todas as pessoas (Marcos 8,31; João 10,10), Pedro já havia revelado sua cegueira, sua incompreensão (Marcos 8,32). E Jesus o repreendera por isso, dizendo que todas as vezes que traímos o projeto do Reino nos tornamos Satanás (Marcos 8,33). Agora, ao propor ficar na montanha e construir três tendas, Pedro novamente revela sua falta de compreensão (Marcos 9,5-6). Ele ainda não entendeu que a construção da justiça do Reino não permite privilégios, nem acomodação. Ser discípulo não é somente participar da glória de Jesus, mas é também carregar a sua cruz, gerando e defendendo a vida.

Pedro não está sozinho. Com ele, estão Tiago e João. Representam, portanto, a toda comunidade, inclusive a nós. Dessa forma, a narrativa questiona também a nossa cegueira quando ela nos induz a limitar a execução de Jesus a uma morte em nosso favor desvinculada de toda uma trama que o levou à cruz. Em outras palavras, o texto questiona nossa dificuldade em aceitar Jesus de Nazaré como o messias de Deus, como alguém que não retrocedeu diante do projeto de morte e firmemente enfrentou a violência da cruz imposta por interesses religiosos e imperialistas, tal como um servo sofredor que dá sua vida por fidelidade ao povo e a Deus. Quantas pessoas nós conhecemos e que também sofreram morte violenta por defenderem vida digna?
O fato de Jesus pedir silêncio até a hora da cruz (Marcos 9,9-10) confirma a intenção da comunidade de Marcos. Não é possível desvincular a missão de Jesus da sua morte violenta imposta pelos romanos em conluio com as autoridades do templo. Estas, aliás, indicadas ou confirmadas por aqueles. Portanto, autoridades dependentes e também a serviço do poder central. Assim, a cruz fez parte da vida de Jesus, não por que Deus assim o exigisse e sentisse prazer com sua execução, mas por ele ser fiel à missão na defesa da vida. Dessa forma, assumiu a mesma cruz que fez parte da vida dos profetas no passado e também da vida dos exilados violentados pela tirania babilônica, tal como um servo sofredor condenado à morte (Isaías 53,3-9).

Este é o meu filho amado, escutai-o
Por fim, novamente a memória das Escrituras ilumina a missão de Jesus (Marcos 9,7-9). A nuvem é um dos símbolos privilegiados na Bíblia para falar da presença de Deus (Êxodo 13,21; 16,10; 34,5; 40,34-38; Números 12,5). E, tal como em Lucas o anjo dissera a Maria ‘o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra' (Lucas 1,35), agora desceu uma nuvem sobre a montanha, cobrindo-os com a sua sombra (Marcos 9,7). É o Pai confirmando a missão do Filho. Do seio de Deus saiu uma voz que disse: Este é meu filho amado, escutai-o (Marcos 9,7), da mesma forma como já havia anunciado por ocasião do batismo: Tu és o meu filho amado (Marcos 1,11). Jesus é o Emanuel, presença libertadora de Deus entre nós.

E mais. Ele é o servo amado, o filho amado, experimentado e aguardado há muito tempo pelo movimento profético (Isaías 42,1). A expressão ‘escutai-o' confirma essa perspectiva. O servo amado tem ouvidos de discípulo para proclamar ao cansado palavras de conforto (Isaías 50,4). E quando o povo hebreu alimentou sua esperança na vinda de um profeta como Moisés, o chamado também foi: escutai-o (Deuteronômio 18,15). A atitude de escuta da voz de Deus em toda a sua criação, especialmente na voz de quem clama por vida plena, é uma das mais profundas formas de oração, de comunhão com o sagrado.

O fato de Moisés e Elias desaparecerem de cena mostra que a missão deles se integra na de Jesus, e este dá uma nova perspectiva às antigas tradições. Não mais um legalismo sobreposto à profecia, mas novamente a profecia, libertada pelo amor fiel de Jesus até a cruz, é o novo espírito que fortalece a quem o segue pelo caminho. Em sua vida, revela-se o amor pleno de Deus por nós.

Não é possível acomodar-se no alto da montanha. Escutar a sua voz desinstala e leva a descer para junto do povo sofrido e tornar o Reino de Deus presente, sem ufanismo ou triunfalismo (Marcos 9,9), mas seguindo humildemente o servo Jesus na sua prática libertadora.


CEBI


sábado, 3 de março de 2012

Padre Léo Hastenteufel é o novo vigário episcopal do Vicariato de Guaíba

O Vicariato de Guaíba tem um novo Vigário Episcopal: O padre Léo Hastenteufel foi escolhido pelo Arcebispo de Porto Alegre, Dom Dadeus Grings para guiar os trabalhos pastorais para aquela região. O presbítero assume o posto em substituição a dom Remídio José Bohn, que foi nomeado pelo Papa Bento XVI para Diocese de Cachoeira do Sul.

Nascido em Linha Francesa Alta, em Salvador do Sul no ano de 1959, padre Léo Hastenteufe é formado em filosofia e teologia pela PUCRS e foi ordenado por dom Claúdio Colling no dia 11 de janeiro de 1986, em sua cidade natal. Padre Léo é irmão do bispo de Novo Hamburgo Dom Zeno Hastenteufel.

Dentre suas atividades, registram-se as passagens pelas Paróquia Nossa Senhora de Fátima (Gravataí), Paróquia Imaculada Coração de Maria (Esteio), coordenador de Pastoral do Vicariato de Canoas e, desde 2010, desenvolvia trabalho como pároco na Paróquia Nossa Senhora da Conceição, em São Jerônimo.

O novo vigário episcopal irá desenvolver atividades em um Vicariato criado em 2001, que abrange 19 municípios, com 21 paróquias e 270 comunidades.

Fonte: Site da Arquidiocese de Porto Alegre
Jornalista Magnus Regis
Foto: Breno Bornhorst