quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Nossa Senhora de Lourdes

Em 11 de fevereiro, a Igreja celebra a festa de Nossa Senhora de Lourdes, relembrando as aparições da Mãe de Deus em Lourdes, uma pequena cidade francesa localizada nos Pirineus, quase na fronteira com a Espanha.

As Aparições

A história das aparições de Nossa Senhora em Lourdes é inseparável da vida de Santa Bernadete Soubirous. A família Soubirous, formada por Francisco, o pai, Luísa, a mãe, Bernadete, Toinette, João Maria e Justino, os filhos, eram os mais pobres da região. Por isso, Bernadete apanhou asma, com que sofreu até morrer.
Em 11 de fevereiro de 1858, a pedido da mãe, Bernadete, sua irmã Toinette e uma vizinha Jeanne Abadie, foram até as margens do rio Gave apanhar lenha para o fogão. Ao chegar às margens do canal que trazia a água dos moinhos, perto da gruta Massabiele, Toinette e Jeanne o atravessaram logo porque a água estava rasa. Bernadete hesita um pouco por causa da temperatura da água e das recomendações de sua mãe, que lhe dissera para tomar cuidado por causa de sua asma. Mas resolve seguir as companheiras e se abaixa para tirar as meias. Ouve, então, um ruído como um sopro de um vento impetuoso. Olhando para as árvores, vê que galhos e folhas não se mexiam e volta a abaixar-se para retirar as meias quando escuta novo barulho de vento. Mais uma vez levanta os olhos e percebe o brilho de uma luz, dentro de um buraco na parede, logo acima de uma roseira brava.

Havia, dentro da luz, uma jovem maravilhosa, com os braços abertos numa atitude de acolhimento, como se a estivesse chamando. Usava um longo cinto azul na cintura, um véu transparente sobre os cabelos e tinha, sobre cada pé, descalço, uma rosa dourada.


Atordoada com a visão, a menina esfregou os olhos, mas esta não desapareceu. Meteu a mão no bolso e encontrou o terço. Tentou fazer o sinal da cruz mas não conseguiu porque sua mão tremia fortemente, ficando cada vez mais espantada. A Senhora fez ela mesma o sinal da cruz e Bernadete, desta vez, pode fazer o seu, pondo-se de joelhos e rezando o terço. A Senhora a acompanhava passando as contas do seu, mas não mexia os lábios. Quando terminou, a Senhora fez sinal a Bernadete para se aproximar, mas ela não teve coragem, e a Senhora desapareceu.

A menina voltou para onde estavam as companheiras que perguntaram porque passara tanto tempo de joelhos, a rezar e Bernadete contou o que acontecera. As crianças contaram aos pais e Francisco e Luísa interrogaram Bernadete sobre o que tinha acontecido. Eles lhe deram uma surra e proibiram de voltar à gruta.

Três dias depois, no domingo, 14 de fevereiro de 1858, depois da missa, as crianças foram todas ao local da aparição, tendo os pais de Bernadete autorizado sua ida, contanto que levasse um pouco de água benta para jogar na aparição. Se não fosse de Deus, com a água benta, iria embora. A Senhora recebeu a água benta com um sorriso. Quanto mais Bernadete jogava água benta, mais a Senhora sorria. Depois, desapareceu.

Na quinta feira seguinte, 18 de fevereiro de 1858, a Senhora falou pela primeira vez, afirmando não ser necessário anotar nada que dissesse e convidando a Bernadete para voltar à gruta durante quinze dias, prometendo torná-la feliz não neste mundo, mas no outro.

E nas aparições, ora a Senhora ficava calada, ora ensinava alguma oração somente para Bernadete. Na oitava aparição começou a pedir a todos penitência e orações pela conversão dos pecadores e a Bernadete que beijasse o chão como penitência pelos pecadores. A Senhora não dizia quem era, mas todos acreditavam ser Nossa Senhora.

Na nona aparição, a 25 de fevereiro de 1858, a Senhora pediu a Bernadete que bebesse e se lavasse na água da fonte. Como não havia água no lugar, Bernadete pensou em ir para o rio, quando a Senhora mostrou um lugar, na gruta. Bernadete começou a cavar, com suas mãos, e começou a jorrar água e lama. Bernadete lavou-se com aquela água e, quando limpou um pouco mais, dela bebeu. A Senhora também lhe disse que comesse algumas ervas do fundo da gruta em penitência pelos pecadores.

Nesta altura dos acontecimentos, quase mil e quinhentas pessoas compareciam à gruta por volta do meio dia para presenciar as aparições. As pessoas chegavam a partir de meia noite para conseguir os melhores lugares e o vigário local, Pe Peyramale, havia proibido a presença de qualquer sacerdote. Em primeiro de março de 1858, na décima segunda aparição, aconteceu o primeiro milagre, pois Catarina Latapié tinha os dedos da mão direita dobrados e paralisados e, ao mergulhá-los na fonte que havia sido cavada no dia 25 de fevereiro, instantaneamente voltaram ao normal. A bem da verdade, muita gente levava da água da fonte para casa, crendo ser milagrosa.

No dia seguinte, 2 de março de 1858, a Senhora disse: Vai dizer aos sacerdotes que venham para cá em procissão e que construam uma capela aqui. Como era de se esperar, o Pe. Peyramale não acreditou que se tratava de um pedido de Maria e exigiu que a menina indagasse à aparição quem era. No dia seguinte, 3 de março, a menina fala da exigência do vigário, mas a aparição somente sorri e torna a pedir a construção de uma capela. O vigário responde: Ela se ri de ti. Diga-lhe que, se quer uma capela, que diga seu nome e faça florir a roseira da gruta. Então faremos uma capela bem grande.


Na décima quinta aparição, no dia 4 de março, estavam presentes mais de oito mil pessoas e a Senhora conversou mais de uma hora com Bernadete, pedindo, mais uma vez, que se construísse, no local, uma capela. E se passaram vários dias sem que Bernadete retornasse à gruta.

Mas, no dia da Festa da Anunciação do Senhor, Bernadete sentiu-se como atraída à gruta. Quando lá chegou, perguntou à aparição quem era ela. E a Virgem respondeu: YO SOU ERA IMACULADA COUNCEPTIOU, que no dialeto local significa: Eu sou a Imaculada Conceição. A menina encheu-se de tristeza e disse; então você não é a Virgem Maria? A Senhora desapareceu e a menina foi falar com o vigário. Este lhe perguntou: Então, é a Santa Virgem quem tu vês? E a menina respondeu com um suspiro de tristeza: Acho que não. Ela disse que era a Imaculada Conceição.

O Pe. Peyramale estremeceu e foi empalidecendo. Quatro anos antes, a 8 de dezembro de 1854, Sua Santidade o Papa Pio IX havia proclamado o dogma da Imaculada Conceição. Aquela pobre menina semi-alfabetizada não tinha como saber sequer o que significavam as palavras Imaculada Conceição. Ele convenceu-se que as aparições eram verdadeiras e eram da própria Mãe de Jesus Cristo.

Depois disso, a Virgem Mãe de Deus ainda apareceu duas vezes a Bernadete Soubirous - 7 de abril de 1858 e 16 de julho de 1858 (Festa de Nossa Senhora do Carmo).

Em 18 de janeiro de 1862, depois de quatro anos de reflexão acerca desses fatos, de pesquisá-los e de interrogar seus protagonistas, o Sr. Bispo da Diocese de Tarbes reconheceu oficialmente as aparições da Virgem Mãe de Deus declarando: Julgamos que a Mãe de Deus, a Imaculada, realmente apareceu a Bernadete Soubirous na Gruta Massabiele, perto da cidade de Lourdes, em 11 de fevereiro e nos dias seguintes, por dezoito vezes, e que esta aparição tem características da verdade.

A Mensagem de Maria em Lourdes

A Mensagem de Nossa Senhora em Lourdes giram em torno de dois pontos principais: a oração e a penitência.

A Oração como sinal de inclinação para Deus, de abertura à vontade de Deus. Desde os primeiros momentos da primeira aparição de Nossa Senhora a Santa Bernadete, a oração marcou o relacionamento entre elas. Quando a pequena vidente percebeu a presença da Mãe de Deus, por não saber quem era, seu primeiro movimento foi meter a mão nos bolsos e apanhar o terço para rezar. E somente conseguiu fazer o sinal da cruz quando a misteriosa Senhora o fez.

A partir de então, em cada aparição, tanto a menina quanto Nossa Senhora e a multidão cada vez maior que lá comparecia rezavam o terço com grande fervor. A menina levantava seus braços com seu terço na mão, como que oferecendo a Nossa Senhora e toda a multidão repetia o gesto, em unidade com a criança, também oferecendo suas orações para a Virgem levar até seu Divino Filho.

A Penitência foi um pedido específico de Nossa Senhora. Ela pedia que se fizesse penitência por si e pelos pecadores. À pequena vidente, primeiro, ela pediu que comesse algumas ervas amargas e beijasse o solo, como penitência pela conversão dos pecadores. Depois disse à menina: vai beber da fonte e lavar-te nela, indicando um local dentro da gruta, onde Bernadete cavou e começou a brotar água misturada com lama, também em penitência por si e pela conversão dos pecadores.

Na oitava aparição, a Senhora pedia que se fizesse penitência e se orasse a Deus pela conversão dos pecadores e ordenou a Bernadete que beijasse a terra em penitência pelos pecadores.

Mas o impressionante, que tocou o coração do Pe. Peyramale, Vigário da Paróquia de Lourdes, foi o fato da aparição ter-se identificado com a Imaculada Conceição. É que havia alguns anos sido proclamado o dogma da Imaculada Conceição da Virgem Maria e isso não havia sido divulgado convenientemente no seio da Igreja. As aparições, a auto-identificação como a Imaculada Conceição e os milagres que se seguiram vieram como sinal para confirmar a veracidade do dogma de fé proclamado pela Igreja, calando, de vez, algumas poucas vozes que se levantaram contra a atitude da Igreja.


Merece registro a promessa que Nossa Senhora fez a Santa Bernadete: Não te prometo fazer feliz neste mundo, mas no outro. É a promessa que faz a cada um de seus filhos, lembrando que este mundo passa e que o outro mundo é onde, verdadeiramente, vale a pena ser feliz. E o pedido que fez aos sacerdotes: vai dizer aos sacerdotes que venham para cá em procissão e construam aqui uma capela. Este pedido é mais e mais atendido, não só pelos sacerdotes, mas pelos milhões de peregrinos que anualmente visitam o Santuário de Nossa Senhora de Lourdes e, com suas doações, ajudam a manter todo o serviço de acolhimento que é uma imagem do caloroso abraço da Mãe a cada filho seu que lhe vai fazer uma visita em Lourdes.

Não se pode, também, deixar de mencionar o extraordinário amor demonstrado por Deus a nós, seus filhos, que a Ele recorremos por intercessão de Nossa Senhora de Lourdes que se manifesta concretamente pelas curas, físicas e espirituais, em profusão, que acontecem em Lourdes. São milagres de toda sorte: de conversão, de mudança de vida, de reencontro com os sacramentos, de reconciliação de casais. Isso sem contar com a cura de doenças do corpo e da alma. Catalogados como comprovadas, em que houve acompanhamento médico anterior e, com ausência de causas naturais, houve cura instantânea, inexplicável e permanente, com exame pela Comissão Médica Internacional, já há registro de mais de cinco mil curas e delas apenas 64 são considerados pela Igreja como milagres. Por isso no dia 11 de fevereiro é também comemorado o Dia do Doente.

Lourdes

Lourdes é uma pequena cidade francesa nos Pirineus. Lá se encontra um dos Santuários Marianos mais visitados no mundo inteiro. É uma cidade pitoresca, como poucas. O clima é temperado o ano inteiro. Mesmo nos dias mais quentes do ano, não há aquele calor a que nós, no Brasil, estamos acostumados.

Lourdes, la Ville Fraternelle, - Lourdes, a Cidade Fraternal - como eles se intitulam, praticamente gira em torno do Santuário de Nossa Senhora e das atividades dele decorrentes - hospedagem, venda de objetos religiosos, restaurantes - só no inverno é que o foco da cidade volta-se para os esportes de inverno - principalmente esqui - , em virtude da neve que pode ser encontrada bem próximo.

Há toda uma estrutura muito bem montada para acolhimento do peregrino, quer ele chegue sozinho, quer chegue em grupo, não importando se está doente ou são.


Na área do Santuário de Nossa Senhora de Lourdes não podem deixar de ser visitadas - nem, naturalmente, deixar de se orar nelas - a basílica subterrânea São Pio X, a basílica do Rosário e a basílica de Nossa Senhora de Lourdes, a gruta Massabiele, a capela do Santíssimo Sacramento - do outro lado do rio Gave - recentemente reformada, e as piscinas, onde uma equipe de voluntários ora por você, dá-lhe de beber da água da fonte e o mergulha inteiramente nas águas geladas da fonte cavada por Santa Bernadete Soubirous, que, desde 1858, jorra sem parar.


Também não se pode deixar de assistir a Santa Missa, que se celebram seguidamente quer nas basílicas, quer no altar da gruta. Há duas procissões todos os dias, uma às 16h30, com o Santíssimo Sacramento, que vai abençoando os doentes e curando aqueles que Ele quer curar, e a Procissão das Velas, às 21h, em que é rezado um terço por uma multidão incalculável, todos portando velas acesas e percorrendo toda a esplanada na frente das basílicas do Rosário e de Nossa Senhora.

Há ainda hospitais, para acolhimento dos doentes, um centro audio-visual - onde são passados filmes acerca das aparições de Nossa Senhora na gruta Massabiele - um museu, um prédio para o sacramento da Reconciliação, um local para se colocar as velas acesas - que podem ser adquiridas lá mesmo - e um sem número de torneiras jorrando, ao toque, água vinda da fonte da gruta. Anexo ao Santuário está a Via Sacra, com figuras em tamanho natural.


Fora da área do Santuário, pode-se ver o Moinho onde morou Santa Bernadete, com sua família, depois que perderam a casa onde moravam, a cadeia, para onde a família Soubirous teve que se mudar quando perderam o moinho. Tudo é bem perto e não há necessidade de se tomar qualquer tipo de transporte.


domingo, 12 de fevereiro de 2012

O Milagre da cura, como acontece?

O Evangelho apresenta vários leques para poder abordar, escolhemos a explicação da compreensão do milagre já que é uma temática que vai continuar aparecendo na vida pública de Jesus e também culturalmente este conceito leva a uma visão religiosa discutível e com consequências que propiciam uma mentalidade de medo, uma magia que parece não acontecer nunca.

Finalmente nos colocamos a acompanhar a Jesus e seus discípulos, a observar seu agir, e seus gestos e pedimos poder viver mais o que contemplamos neste quadro de extrema beleza de comunicação de Jesus com essa mulher doente.

Os doentes formavam outro grande grupo de marginalizados. Além de excluídos do dom da saúde, também o eram do acesso a ela. Considerados impuros e pecadores pelos agentes religiosos, os sacerdotes e doutores da lei, muitos doentes recebiam como explicação teológica de sua doença ou a possessão por um espírito maligno ou o castigo de Deus por algum pecado pessoal ou dos antepassados (Jo 9, 1-2). Não podiam entrar no Templo, eram excluídos do encontro com o próprio Deus.

Jesus é aquele que, em qualquer lugar, a qualquer hora, liberta as pessoas de qualquer alienação e de tudo o que as impede de ter vida plena.

Há pessoas que se perdem na superfície do milagre e esquecem de buscar o essencial e válido para todos os tempos. Por exemplo, o exorcismo. No tempo de Jesus, o demônio (ou espírito mau ou espírito impuro) era tudo o que impedia a pessoa de ser ela mesma.

No mundo cultural ocidental, o milagre é visto como um acontecimento portentoso, que interrompe as leis da natureza, e só pode ser atribuído a Deus. Nesta perspectiva a natureza é considerada um sistema fechado: só em casos excepcionais Deus intervém na ordem desse mundo por ele criado. Parece que o mundo já está pronto e Deus faz uma intervenção um pouco mágica.

A visão dos judeus era bastante diferente. Para eles, o mundo criado como o ser humano, estão continuamente abertos à ação divina criadora e salvadora. Tanto a natureza quanto a história estão sempre abertas à intervenção de Deus. Em consequência os milagres não eram interpretados como interrupções das leis da natureza. Milagre era toda comunicação de presença vivificadora e libertadora de Deus, mas sempre uma comunicação feita com poder. Esta é a maneira de agir Jesus.

Nas pregações dos milagres de Jesus não se continua passando hoje esta visão? Lembre-se de algum programa de TV, novelas que alimentam esta visão e tire ás consequências

Agora se podemos adentrar-nos na comunicação de Jesus com a sogra de Pedro, entrar na casa junto com seus discípulos e contemplar os gestos e palavras de Jesus com aquela mulher idosa e doente.

Jesus, um homem que escuta, vá ao encontro, toca, se comunica, coloca toda sua atenção na comunicação de vida com essa mulher necessitada. Fixemos nossa atenção nos verbos deste trecho bíblico, e aí conheceremos mais o coração de Jesus, sua vida que vai além dos esquemas dessa época.

Todas as ações de Jesus manifestam como ele se debruça para comunicar vida, liberdade, para integrar logo, a mulher ao seu ambiente, se preocupa das necessidades básicas, pede comida para ela.

Esse se doar por inteiro com gestos e palavras, sendo sensível aos mais necessitados no dia a dia é uma proposta revolucionária já que hoje os pobres, os doentes são utilizados para consumir os produtos de oferta, gerando muitas vezes uma mentalidade de alienação e não de gratuidade e liberdade.

Diante das pessoas necessitadas, qual é a minha atitude? Percebo que a existência da pobreza muitas vezes, é lucro para alguns?


Referências:
BORTOLINI, José. Tire suas dúvidas sobre Bíblia. 7.ed. São Paulo: Paulus, 2005.
GALDINO FELLER, Vitor. A Revelação de Deus a partir dos excluídos. São Paulo: Paulus, 1995.
GARCIA RUBIO, Alfonso. O Encontro com Jesus Cristo Vivo. Um ensaio de cristologia para nossos dias. 8ed. São Paulo: Paulinas, 2001.

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/espiritualidade/comentario-evangelho/500137-domingo-8-de-fevereiro-evangelho-segundo-marcos-129-39

sábado, 11 de fevereiro de 2012

NÃO VOLTAR ATRÁS NO ANÚNCIO DA BOA NOVA - MANTER VIVA A CONSCIÊNCIA DA MISSÃO (MARCOS 1,40-45)

Texto extraído do livro “Caminhando com Jesus” série A Palavra na Vida – Edição 182/183
Autores: Carlos Mesters e Mercedes Lopes
Páginas 34 a 37
CEBI Publicações
Nos versículos 16 a 45 do primeiro capítulo, Marcos descreve o objetivo da Boa Nova e a missão da comunidade, apresentando oito critérios para as comunidades do seu tempo poderem avaliar a sua missão. Tanto nos anos 70, época em que Marcos escreveu, como hoje, época em que nós vivemos, era e continua sendo importante ter diante de nós modelos de como viver e anunciar o Evangelho e de como avaliar a nossa missão.
COMENTANDO
Mc 1, 40-42: Acolhendo e curando o leproso, Jesus revela um novo rosto de Deus
Um leproso chega perto de Jesus. Era um excluído. Devia viver afastado. Quem tocasse nele ficava impuro também! Mas aquele leproso teve muita coragem. Transgrediu as normas da religião para poder chegar perto de Jesus. Ele diz: "Se queres, podes curar-me!" Ou seja: "Não precisa tocar-me! Basta o senhor querer para eu ficar curado!" A frase revela duas doenças: 1) a doença da lepra que o tornava impuro; 2) a doença da solidão a que era condenado pela sociedade e pela religião. Revela também a grande fé do homem no poder de Jesus. Profundamente compadecido, Jesus cura as duas doenças. Primeiro, para curar a solidão, toca no leproso. É como se dissesse: "Para mim, você não é um excluído. Eu o acolho como irmão!" Em seguida, cura a lepra dizendo: "Quero! Seja curado!" O leproso, para poder entrar em contato com Jesus, tinha transgredido as normas da lei. Da mesma forma, Jesus, para poder ajudar aquele excluído e, assim, revelar um rosto novo de Deus, transgride as normas da sua religião e toca no leproso. Naquele tempo, quem tocava num leproso tornava-se um impuro perante as autoridades religiosas e perante a lei da época.
Mc 1, 43-44: Reintegrar os excluídos na convivência fraterna
Jesus não só cura, mas também quer que a pessoa curada possa conviver. Reintegra a pessoa na convivência. Naquele tempo, para um leproso ser novamente acolhido na comunidade, ele precisava ter um atestado de cura assinado por um sacerdote. É como hoje. O doente só sai do hospital com o documento assinado pelo médico de plantão. Jesus obrigou o fulano a buscar o documento, para que ele pudesse conviver normalmente. Obrigou as autoridades a reconhecer que o homem tinha sido curado.
Mc 1, 45: O leproso anuncia o bem que Jesus fez e ele e Jesus se tornam excluídos
Jesus tinha proibido o leproso de falar sobre a cura. Mas não adiantou. O leproso, assim que partiu, começou a divulgar a notícia, de modo que Jesus já não podia entrar publicamente numa cidade. Permanecia fora, em lugares desertos. Por quê? É que Jesus tinha tocado no leproso. Por isso, na opinião da religião daquele tempo, agora ele mesmo era um impuro e devia viver afastado de todos. Já não podia entrar nas cidades. Mas Marcos mostra que o povo pouco se importava com estas normas oficiais, pois de toda a parte vinham a ele! Subversão total!
O duplo recado que Marcos dá às comunidades do seu tempo e a todos nós e este: 1) anunciar a Boa Nova é dar testemunho da experiência concreta que se tem de Jesus. O leproso, o que ele anuncia? Ele conta aos outros o bem que Jesus lhe fez. Só isso! Tudo isso! E é este testemunho que leva os outros a aceitar a Boa Nova de Deus que Jesus nos trouxe. 2) Para levar a Boa Nova de Deus ao povo, não se deve ter medo de transgredir normas religiosas que são contrárias ao projeto de Deus e que dificultam a comunicação, o diálogo e a vivência do amor. Mesmo que isso traga dificuldades para a gente, como trouxe para Jesus.
ALARGANDO
O Anúncio da Boa Nova de Deus feito por Jesus
A prisão de João fez Jesus voltar e iniciar o anúncio da Boa Nova. Foi um início explosivo e criativo! Jesus percorre a Galiléia toda: as aldeias, os povoados, as cidades (Mc 1,39). Visita as comunidades. Ele muda de residência, e vai morar em Cafarnaum (Mc 1,21; 2,1), cidade que fica no entroncamento de estradas, o que facilita a divulgação da mensagem. Ele quase não para. Está sempre andando. Os discípulos e as discípulas com ele, por todo canto. Na praia, na estrada, na montanha, no deserto, no barco, nas sinagogas, nas casas. Muito entusiasmo!
Jesus ajuda o povo prestando serviço de muitas maneiras: expulsa maus espíritos (Mc 1,39), cura os doentes e os maltratados (Mc 1,34), purifica quem está excluído por causa da impureza (Mc 1,40-45), acolhe os marginalizados e confraterniza com eles (Mc 2,15). Anuncia, chama e convoca. Atrai, consola e ajuda. É uma paixão que se revela. Paixão pelo Pai e pelo povo pobre e abandonado da sua terra. Onde encontra gente para escutá-lo, ele fala e transmite a Boa Nova de Deus. Em qualquer lugar.
Em Jesus, tudo é revelação daquilo que o anima por dentro! Ele não só anuncia a Boa Nova do Reino. Ele mesmo é uma amostra, um testemunho vivo do Reino de Deus. Nele aparece aquilo que acontece quando um ser humano deixa Deus reinar, tomar conta de sua vida. Pelo seu jeito de conviver e de agir, Jesus revelava o que Deus tinha em mente quando chamou o povo no tempo de Abraão e de Moisés. Jesus desenterrou uma saudade e transformou-a em esperança! De repente, ficou claro para o povo: “Era isso que Deus queria quando nos chamou para ser o seu povo”!
Este foi o começo do anúncio da Boa Nova do Reino que se divulgava rapidamente pelas aldeias da Galiléia. Começou pequena como uma semente, mas foi crescendo até tornar-se árvore grande, onde o povo todo procurava um abrigo (Mc 4,31-32). O próprio povo se encarregava de divulgar a notícia.
O povo da Galiléia ficava impressionado com o jeito que Jesus tinha de ensinar. "Um novo ensinamento! Dado com autoridade! Diferente dos escribas!" (Mc 1,22.27). Ensinar era o que Jesus mais fazia (Mc 2,13; 4,1-2; 6,34). Era o costume dele (Mc 10,1). Por mais de 15 vezes o Evangelho de Marcos diz que Jesus ensinava. Mas Marcos quase nunca diz o que ele ensinava. Será que não se interessava pelo conteúdo? Depende do que a gente entende por conteúdo! Ensinar não é só uma questão de ensinar verdades novas para o povo decorar. O conteúdo que Jesus tem para dar transparece não só nas palavras, mas também nos gestos e no próprio jeito de ele se relacionar com as pessoas. O conteúdo nunca está desligado da pessoa que o comunica. Jesus era uma pessoa acolhedora (Mc 6,34). Queria bem ao povo. A bondade e o amor que transparecem nas suas palavras fazem parte do conteúdo. São o seu tempero. Conteúdo bom sem bondade é como leite derramado.
Marcos define o conteúdo do ensinamento de Jesus como "Boa Nova de Deus" (Mc 1,14). A Boa Nova que Jesus proclama vem de Deus e revela algo sobre Deus. Em tudo que Jesus diz e faz, transparecem os traços do rosto de Deus. Transparece a experiência que ele mesmo tem de Deus como Pai. Revelar Deus como Pai é fonte, o conteúdo e o destino da Boa Nova de Jesus.